A Verdade Está Lá Fora!

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É Quase Verdade, um média-metragem de 27 minutos e o terceiro trabalho da carreira do diretor Emanuel Mendes, um mineiro que se estabeleceu em São Paulo desde 1999, é um filme cheio de quases e repleto de primeiras vezes. Ele quase não chegou a acontecer, quase não foi realizado do modo como veio ao mundo – a princípio, seria um documentário verdadeiro, que trataria sobre mendigos de rua na capital paulista –, quase foi parar diretamente na internet, quase chegou a virar um longa-metragem, e, finalmente, representou um sem-número de primeiras vezes para seu diretor: foi seu primeiro filme em preto e branco, o primeiro rodado inteiramente em digital, a primeira comédia, o primeiro feito quase (de novo!) totalmente na improvisação – houve um ensaio com os atores, mas o diretor não utilizou os tradicionais storyboards de representação das cenas –, a primeira vez na qual teve uma trilha sonora composta exclusivamente para o filme, e o primeiro realizado pela Sincronia Filmes, a produtora que o diretor fundou junto do também diretor Francisco Costabile.

“Mas eu acho que, mais importante ainda, vai ser um filme cheio de tudos ou nadas”, brinca a produtora Bianka Saccoman. “Ou as pessoas vão amar ou odiar categoricamente, sem meios termos. Por mais que ele esteja engraçado, irônico, leve, às vezes sério e dizendo coisas que precisam ser ditas, mas sempre com um efeito salutarmente cômico, ele com certeza não vai te deixar indiferente, para o bem ou para o mal”, diz Bianka. “Mas eu acho que era para ser assim desde o início – desde que os meninos vieram com a ideia de fazer um documentário falso, na linha do Zelig, do Woody Allen, ou de um Borat, do Sacha Cohen.” E uma fita que, afinal, justamente por ser um documentira, como ficaram conhecidos esses tipos de filme (em inglês o termo é mockumentary, que se aproxima mais do conceito de tirar um sarro), pode provocar as mais diversas reações. “E que era o que o Emanuel estava procurando, eu acho”, segundo Bianka.

“Para mim, o filme nasceu quase (opa, outra vez!) a partir de uma frustração, de uma raiva interior mesmo”, diz o diretor Emanuel Mendes. “Quando participei de festivais com meus dois outros trabalhos, Assis & Aletéia, em 2002, e Amarar, em 2008, não foram poucas as vezes que ouvi que eles não pareciam filmes brasileiros. Pensei comigo: “Uai, por quê?” (o diretor ainda mantém alguns tiques do delicioso sotaque da terra de Guimarães Rosa) “Só porque não falam de favela? De violência? Dos clichês do cinema nacional? E o mais curioso é que, mesmo o curta-metragem tendo um espaço mais amplo para a experimentação e a linguagem, esse tipo de coisa (os clichês) ainda é esperada do formato, com uma devoção meio sacrossanta. Aí, virei para o André (Campos Mesquita), que escreveu comigo o Amarar, e propus um documentário falso que tirasse um sarro desse modus operandi do cinema brasileiro. Na época, o André queria fazer um documentário verdadeiro sobre moradores de rua e pedintes em São Paulo. Nós só unimos o útil ao agradável”, completa Emanuel.

Dessa forma, os produtores acreditam que É Quase Verdade não só conversa com uma certa vertente do cinema brasileiro a qual tenta trazer novos ares para a produção audiovisual do país – ou seja, filmes e diretores explorando outros assuntos além do Brasil das bananas, do Cinema Novo e Glauber Rocha –, como também dialoga fortemente com o que o cineasta Guilherme de Almeida Prado, amigo pessoal de Emanuel Mendes há alguns anos, e que interpreta um diretor de cinema do terceiro mundo, com direito a gorro e cobertor, diz em um dos depoimentos do filme: que a Europa e os Estados Unidos, regiões dominantes da arte e da cultura em geral, sempre veem países considerados periféricos (e isso inclui terra brasilis) como colonizados ou imperializados, respectivamente. “São os europeus que fazem a grande arte, são eles é que entendem dela. Nós, como povo colonizado, temos mesmo é que fazer um cinema subdesenvolvido, um cinema de acordo com nossas características coloniais”, diz Guilherme em uma cena do filme. “Ou seja, a verdade parece estar sempre lá fora, nas premiações, no glamur do primeiro mundo, quase (outra vez!) como se, se não recebermos o selo de aprovação deles, não podemos ser levados a sério.” Aliás, Almeida Prado, um dos mais talentosos e subestimados diretores do cinema brasileiro, é outro frequentemente atacado por certa parcela da crítica e dos colegas, que o consideram alienado e fazendo um cinema na contramão. “Mas enquanto o cinema brasileiro me parece tão de olhos no passado, tentando repetir fórmulas dos tempos do Cinema Novo, fico orgulhoso de estar na contramão, de olho no futuro do cinema”, completa Guilherme.

“E tudo isso também não deixa de conversar com o que vem rolando no país desde as manifestações de 2013”, continua Bianka. “É incrível como o timing do universo às vezes funciona a seu favor: o filme agora sai em uma época onde todo mundo discute qual o papel queremos ter como cidadãos na construção de um país melhor e com condições de igualdade para todo mundo – um país que seja competitivo, justo, economicamente forte, culturalmente significativo, sem necessariamente apelar para o mais baixo denominador comum, um país que não seja conhecido apenas por ser o do futebol e do Carnaval. E por mais que É Quase Verdade seja um curta-metragem, com um alcance pequeno se comparado ao do longa, ainda assim as discussões e o que elas podem provocar são super válidas.”

Assim, os produtores ainda pretendem levar essa discussão e, é claro, o próprio filme, a lugares aonde acreditam ele pode ser melhor avaliado, interpretado, questionado e discutido: salas de aula. “Sim, essa era uma ideia que tivemos desde o início”, continua Bianka. “Não há lugar melhor para esperar o tipo de reação que queremos suscitar do que em escolas, universidades e centros de ensino em geral. Afinal, foi dali que partiram muitas das manifestações, é dentro de salas de aula que se iniciam discussões que muitas vezes levam a ações concretas, mais do que teorias pré-concebidas ou especulações. Até porque também o filme toca (ainda que de maneira sutil) em um assunto há tempos discutido pela classe artística e pessoal formador de opinião: as políticas culturais, a burocracia, os entraves, e, de certa forma (por que não?), a própria política”, diz Bianka.

“O filme, ao mostrar cenas que discutem isso de maneira bem-humorada, quer nos perguntar: é dessa forma mesmo que iremos construir um mercado? É assim que vamos criar uma indústria de audiovisual? É desse jeito que a cultura e o acesso a ela vai ser canalizado? Porque até agora não conseguimos formar verdadeiramente uma indústria – uma indústria sólida, competitiva, que se auto-sustenta. Ela é sempre dependente de política e políticas públicas, o que nem sempre traz benefícios”. Completa Bianka: “Assim, não teremos nunca uma indústria que quer acontecer, quer realizar, uma indústria de verdade. Desse jeito, ela vai continuar para sempre querendo ser (ó, céus, aqui vamos nós!) quase verdade.”

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