Como Pensar Um Cartaz

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Foram meses de trabalho e pesquisa até se chegar a uma solução que contivesse toda a ideia do projeto: “uma ideia de transformação”, afirma Flávia Marinho, da Datadot, estúdio de design e animação em São Paulo responsável pela concepção e criação do cartaz para cinema de A Tecnologia Social – primeiro longa-metragem da Sincronia Filmes que em breve entra no circuito do país. Não é sempre que um filme do gênero exibe uma peça dessa natureza, cujo resultado se aproxima do poético e chega mesmo a instigar os sentidos, com um uso de cores forte – destacando-se em especial o azul do cabelo de Nathalie Siqueira, a protagonista do filme – e ao mesmo tempo uma suavidade e beleza alcançados pela pose na foto, os olhos fechados como se estivesse sonhando ou imaginando alguma coisa. Mas para se obter o efeito, a Datadot, seguindo as orientações dos produtores Emanuel Mendes e Janaina Zambotti, pesquisou um sem-número de cartazes para cinema, design de peças publicitárias, arte feita para capinhas de Blu-ray e DVD de todos os gêneros e nacionalidades, sempre com esse conceito de transformação norteando a geração do pôster.

Tudo começou com a foto original – tirada pela fotógrafa e diretora Liliana Israele, uma fiel colaboradora da equipe Sincronia –, que aliás trazia outras variações de pose e olhares, “mas resolvemos nos concentrar nessa em especial por ter, já mesmo quando ainda estava crua, um efeito muito bonito, na suavidade com que a Nathalie está na imagem, nesses olhos fechados que, mesmo assim, conseguiam transmitir muita coisa”, continua Flávia, que trabalha ao lado de Otávio Burin na Datadot e é especialista em design da informação e visualização de dados, com trabalhos realizados para a Folha de São Paulo, Estadão, e revistas publicadas pela Editora Globo e Abril, e é parceira da Sincronia desde a realização do filme institucional para a Labordental, lançado em 2017.

Detalhe do projeto criado pela Datadot.

O conceito das cores veio do cartaz para o filme Raw (2016), de Julia Ducournau, inédito no Brasil, sobre uma jovem vegetariana que de repente adquire um gosto inusitado por carnes (trata-se de uma fita de horror, sucesso no circuito independente), que também exibe uma ideia curiosa, conversando com a proposta da história, e um uso de cor majoritariamente quente e forte, quase misturando-se à pele da protagonista. “Resolvemos que iríamos seguir essa linha de raciocínio”, diz Flávia, “enquanto também daríamos contraste com o azul do cabelo.”

Mas nem sempre uma ideia nasce completamente concebida e/ou pronta. Explica Flávia: “O Emanuel nos passou várias referências do cinema que gostava, inclusive uma utilizando um desenho feito em cima de uma foto (do pôster do filme The One I Love, também inédito no Brasil), mas nas reuniões que fizemos ao longo do processo ele ficou receoso em utilizar essa abordagem, que poderia parecer que estávamos tentando enfeitar demais um assunto que na verdade é muito sério – em outras palavras, colocar no cartaz um desenho poderia distanciar da ideia e da proposta de A Tecnologia Social, um documentário falando sobre tópicos como Aids, doenças sexualmente transmissíveis, relacionamentos modernos entre os jovens, violência de gênero e outros”, afirma Flávia. Foi então que o estúdio resolveu modificar o ponto de vista, trabalhando ainda assim com cores – “uma das fontes evidentemente foi o filme em si, que possui um visual meio terra, que parece ser uma cor muito predominante na geografia da África do Sul (onde o filme foi rodado)”, diz Flávia –, ao mesmo tempo se concentrando na ideia da narrativa. “E se virássemos a foto de cabeça para baixo? E se, ao virá-la, também fizéssemos com que a mesma foto encontrasse a anterior?” Com isso, o estúdio conseguiu não apenas transmitir essa noção de transformação muito presente no filme – na narrativa, Nathalie sofre um processo desse tipo, que seria no cinema de ficção o arco da personagem, e que aconteceu de maneira totalmente involuntária –, como também imprimiu um “movimento” ao cartaz, como se o processo de transformação passasse de um plano a outro da foto de Nathalie. Outra noção curiosa, e que conversa com o filme, é o fato de a imagem transmitir a sensação de pensamento, de transmissão de ideias – muito presente também no filme, uma vez que a própria Nathalie é quem conduz a história, muito dela é vista sob sua perspectiva, e ela expor uma variedade imensurável de ideias, propostas, opiniões e avaliações responsáveis, da mesma forma, a ajudá-la neste processo transformador (não se pode esquecer, aliás, que a tagline do filme, ou seja, a frase que o define, e está inclusive no cartaz, é justamente uma fala dela, e que diz muito sobre o longa, sobre Nathalie e a proposta de tudo: “Viver de maneira positiva pode ser muito diferente do que pensamos”).

E certamente o pensar diferente influiu sobre o projeto, desde sua concepção. “Sabíamos que a equipe não queria realizar um documentário padrão, desses onde vemos apenas entrevistas e mais entrevistas sem parar”, diz Flávia. “Ficamos também tocados, sensibilizados e inspirados pelo projeto, que, ao final, exibiu um resultado procurando mesmo fugir do comum, uma maneira muito particular de enxergar todo o universo que se desenrola ali, com muito mais fluidez e movimento, pois as pessoas é quem conduzem a ação, tanto literal quanto metaforicamente. Priorizamos o minimalismo, uma qualidade que tanto nós quanto o pessoal da Sincronia gosta e trabalha e acho que o resultado foi muito, muito positivo”, finaliza Flávia. A Tecnologia Social estreia em novembro nas salas de cinema de todo o país.  

Cartaz definitivo de “A Tecnologia Social”      

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