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O Produtor Executivo Fala Sobre o Mercado e as Novas Perspectivas para o Futuro

 

por Marcela Liz

Recém-chegado do Rio 2C – antigo Rio Content Market, o evento multimídia de encontro entre produtores, criadores de conteúdo e players em geral (canais de exibição; exibidores etc) –, o produtor e produtor executivo Junior Perini, experiente profissional com mais de 40 anos no mercado, atuando em diversas produtoras Brasil afora, e parceiro da Sincronia Filmes em alguns projetos em andamento na casa, arrumou um tempinho em sua agenda lotada para conversar sobre o que anda rolando no meio do audiovisual no país e as mudanças pelas quais o setor vem passando de uns anos para cá. Circulando entre diversos meios, como a TV, a publicidade e o cinema, Perini já realizou mais de cinco mil peças publicitárias – entre elas para a conhecida Estrela, a tradicional marca de brinquedos fundada em São Paulo em 1937 –, e hoje desenvolve e negocia com diversos players do mercado os vários projetos em diferentes formatos. Nesta entrevista, concedida por email logo após o produtor retornar do Rio de Janeiro, Perini faz uma avaliação do mercado audiovisual no país e arrisca algumas previsões para o futuro próximo.   

 

Fale um pouco sobre seu histórico e experiência no mercado audiovisual. De onde vem, o que já fez?

Iniciei minha carreira profissional na Espiral Filmes em 1981, na época considerada uma das dez melhores produtoras do mundo. Trabalhei em outras produtoras como a Chroma, Fathom, Central, TVT, Filmmakers, até montar a Cinéma em 1992, e em 2013 montei a Biocine Produções. Ou seja, há mais de 40 anos em atividade no mercado audiovisual.

Como você avalia a sua profissão? Quais os desafios de ser um produtor audiovisual no Brasil e gerenciar/administrar projetos do setor?

Empreender no Brasil não é fácil. O mercado audiovisual tem suas peculiaridades, o financiamento público está passando por ajustes e isso tem um grande impacto em nosso setor. Hoje temos algumas produtoras/cineastas que investem do próprio bolso na produção de conteúdo e depois tentam sua venda – por um lado isso movimenta o setor, por outro entregamos conteúdos prontos aos players por um valor muito abaixo do mercado, e algumas vezes até mesmo na qualidade final do produto, uma vez que os recursos financeiros aplicados pelo produtor são escassos. É fundamental uma discussão do setor como um todo, envolvendo criação, produção, distribuição e players, de novas formas de financiamento, principalmente do setor privado, criando formas de fomentar a indústria, com patrocínio ou investimento.

Produtores em geral possuem vários projetos em cinema – mas muitas vezes são obrigados a migrar para a publicidade ou TV em busca de trabalho ou oportunidades. Como você acha que os profissionais e o mercado encaram essas dificuldades?

Na verdade no Brasil foi ao contrário, as produtoras de publicidade que descobriram o nicho de conteúdo (com exceção das antigas produtoras que produziam cinema), até por necessidade de um braço em outro negócio. Uma das primeiras produtoras que ensaiavam conteúdo era a Olhar Eletrônico, que viria a se tornar a O2 Filmes (produtora do cineasta Fernando Meirelles). Hoje as produtoras não têm distinção entre publicidade e conteúdo – algumas criaram departamentos próprios, mas de forma geral o relacionamento com o mercado é muito bom, inclusive quando se aplica o branded content nas obras.

 

Existem diferenças entre trabalhar para o cinema, a TV e a publicidade – ou as demandas e/ou desafios são basicamente iguais?

A publicidade é mais rápida, você orça, realiza, entrega e recebe, um modelo de remuneração bem mais rápido. Produzir conteúdo, seja ele cinema, séries, documentários, programas etc, é mais demorado, principalmente em sua elaboração, onde os players participam da criação e realização. Mas talvez a grande diferença entre conteúdo e publicidade seja a criação do profissional, a ingerência criativa no conteúdo é muito maior do que na publicidade. Em termos de produção os dois formatos se equivalem, as dificuldades são as mesmas.

Tendo acompanhado um pouco o histórico do Rio Content Market (agora Rio 2 C), como você avalia a trajetória do evento? O que mudou de uns anos pra cá?

O Rio2C evoluiu imensamente desde as primeiras edições, desde que se chamava Rio Content Market. Hoje o evento engloba música, games, sustentabilidade, moda etc. Do meu ponto de vista melhorou, pois a mudança para Cidade das Artes propicia um evento mais plural.

 
                                                               O produtor no Rio de Janeiro em maio para o Rio 2 C.
 

O que você sentiu em relação aos produtores/criadores de conteúdo circulando por este novo Rio Content Market (Rio 2 C)?

O fato de durante os últimos anos os eventos terem sido virtuais, o público de forma geral estava entusiasmado de poder voltar ao presencial. Nossa classe é muito comunicativa e o olho no olho é fundamental no nosso negócio. Foi muito positivo, inclusive com os players.

Como enxerga as perspectivas futuras para o mercado audiovisual no Brasil?

Hoje temos credibilidade criativa e de entrega perante os players, e isso nos coloca numa posição de visibilidade no mercado mundial. O fato de sermos um dos maiores públicos consumidores de conteúdo e a qualidade das nossas produções nos leva a acreditar que nosso mercado tem muito a crescer. Além dos canais de Tv aberto e a cabo ainda estarem investindo em conteúdo, temos as plataformas de streaming, inclusive distribuidoras também estão criando parcerias para suas produções. Assim o mercado para os produtores está bem aquecido, e mais do que nunca a originalidade faz a diferença. Contar boas histórias é nossa grande oportunidade como produtores.

Marcela Liz é jornalista e empreendedora. Colabora com regularidade para este site.