Vitórias Recentes Ainda São Exceção
por Natália Robalinho
Matérias I 21 de Maio de 2026
As vitórias de Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto já são um grande marco para o audiovisual brasileiro, porém, ainda continuam a exceção. Se analisarmos dados do mercado nacional de cinemas em 2025 os números internamente são preocupantes. Se continuarmos a não investir em um projeto que fortaleça o audiovisual, vamos continuar vendo um pequeno número de obras sendo responsáveis por mais da metade do faturamento anual.
No ano passado o número total de filmes que foram exibidos nas salas de cinema foram de 203. Destes, somente sete filmes alcançaram um público maior que 200 mil espectadores, os quais foram O Agente Secreto, Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa, Vitória, Homem com H, Perrengue Fashion, Fé para o Impossível e O Último Azul. Eles representaram cerca de 73% do público contabilizado para os filmes nacionais lançados em 2025 no cinema.
Já entre os filmes que nem alcançaram 1 mil espectadores temos 163 produções, que representam mais da metade (54,7%) do total de 203 filmes lançados nesse período. No geral, eles alcançaram 33.736 ingressos, que representa 0,3% do total do público que assistiu ao cinema nacional.

Se transformarmos esses números em média de público, o resultado é alarmante, sendo uma média de 719 ingressos por filme. Essa é a média de público atingido pelo filme que ficou na 102ª posição no ranking de ingressos, o que demonstra que mais de 50% dos filmes lançados no ano passado sequer atingiram a marca de 719 espectadores.
O problema não está na produção. Pelo contrário, ela cresceu cerca de 30% em relação a 2024, impulsionada principalmente pelo aporte público. Pela Ancine, foram investidos R$546 milhões via leis de incentivo, além de R$411 milhões em linhas de crédito. O problema é que esse investimento virou uma faca de dois gumes ao priorizar quase exclusivamente a produção, deixando distribuição, exibição e marketing em segundo plano.
Não adianta destinar R$1 milhão para produzir um longa-metragem e reservar apenas R$100 mil para distribuição. É preciso custear cópias, negociar circulação nacional em um país de dimensões continentais, produzir cartazes, campanhas de divulgação e ações de engajamento. Há ainda os custos de logística para levar elenco e equipe a premières, entrevistas e eventos de imprensa. Sem estrutura de lançamento, muitos filmes acabam dependendo exclusivamente do boca a boca para sobreviver e até para conquistar mais salas.
Os próprios relatórios da Ancine deixam evidente essa defasagem, apenas cerca de 20% do investimento público é direcionado à comercialização, área que inclui marketing e distribuição. É muito pouco. Soma-se a isso a dependência quase absoluta do capital público. Muitas produtoras ficam à mercê de editais irregulares e que atrasam a entrega resultado, o que ocasiona longos períodos sem previsibilidade financeira, dificultando a sobrevivência de parte do setor.
E mesmo quando os filmes chegam aos cinemas, enfrentam outro obstáculo: a cota de tela. A política que deveria proteger a indústria nacional não estabelece critérios que realmente favoreçam os filmes brasileiros. Sem exigência de horários competitivos, muitas produções acabam relegadas às sessões do início da tarde, quando grande parte do público simplesmente não consegue ir ao cinema. Pequenos filmes, muitas vezes, não sobrevivem sequer à primeira semana em cartaz.
Os exibidores não podem carregar sozinhos a culpa desse cenário. Com um sistema de apoio frágil, é difícil exigir que assumam o risco financeiro sem contrapartida. Em meio a cerca de dez estreias semanais, tendo elas que competir muitas vezes com pouquíssimas salas, e com a obrigação de programar ao menos 32 títulos brasileiros por ano em 16% das sessões, é natural que as redes priorizem apostas mais seguras de bilheteria. Principalmente em um mercado que ainda sente a queda de público no pós-pandemia.
Outro ponto de fragilidade é a distribuição desigual das salas de cinema pelo país. O Brasil possui 3.554 salas, mas metade delas está concentrada no Sudeste. Só o estado de São Paulo reúne 1.053 salas. Já toda a região Norte conta com apenas 54. Em 11 dos 26 estados brasileiros, as redes exibidoras estão praticamente concentradas nas capitais. Essa desigualdade cria uma barreira física, econômica e social para o acesso ao cinema nacional.
Também existe uma dissonância entre parte do público e as histórias que historicamente dominaram o mercado. Durante muito tempo, o investimento se concentrou em comédias escrachadas e narrativas centradas na violência urbana. O público se desgastou dessas fórmulas e passou a associar, de forma estereotipada, as novas produções a esse modelo antigo. Isso se agravou em um período de forte desvalorização da cultura nacional, discurso que se espalhou e contaminou a percepção popular sobre o audiovisual brasileiro. Um bom exemplo de um de filme brasileiro que discute, ironiza e tira um sarro deste modus operandi e fórmulas desgastadas é o próprio É Quase Verdade (2014, foto abaixo), documentira produzido aqui pela Sincronia Filmes, e escrito e dirigido pelo fundador da produtora, Emanuel Mendes. Na história, o mendigo de rua Aparício (interpretado pelo ator e cartunista Pedro Ivo) e seus amigos desabrigados querem saber por que o cinema nacional só retrata favelas, violência, Nordeste e afins, e nunca se preocupou em realizar filmes sobre a classe da mendicância, como a dele.

O brasileiro gosta de se ver na tela. O problema é que muitas vezes ele sequer sabe que determinados filmes existem. Falta acesso à informação sobre os lançamentos, enquanto persiste o preconceito de que o cinema nacional produz apenas obras apelativas ou de pouco refinamento narrativo. Todas essas questões escancaram uma fragilidade estrutural do setor e, mais do que isso, uma escolha política. Falta uma política pública que trate o audiovisual como indústria, ativo econômico e gerador de emprego. Seguimos desperdiçando o potencial do nosso próprio mercado, concentrando sucessos em um grupo restrito.
As políticas de investimento seguem sendo indispensáveis, mas se esvaziam quando, na etapa decisiva de distribuição e exibição e divulgação, o investimento simplesmente desaparece. Nesse cenário, muitas obras já entram em cartaz não para disputar público, mas para cumprir tabela rumo ao fracasso de bilheteria. Produzimos muito, e bem. Histórias potentes, diversas, atravessando gêneros e ampliando repertórios. Ainda assim, enquanto a distribuição seguir como gargalo crônico, continuaremos reféns do acaso, celebrando como regra aquilo que é exceção, os poucos filmes que conseguem furar a bolha e alcançar sucesso nacional e, eventualmente, internacional.
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Natália Robalinho faz produção, assistência de direção e coordenação de conteúdo ligado ao Audiovisual