O Pôster Como Arte

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Não é de hoje que o pôster de cinema é visto como arte – uma indelével e indefectível ferramenta para se ajudar (ou às vezes destruir) a carreira de um filme. Mas ele deve ser concebido, em toda a sua forma, com o conceito e as ideias da obra que retrata, sem trai-los. “É como o frasco de um perfume”, afirma Garrick Webster, do site Creative Bloq, especializado em design e arte em geral. “E é muito mais legal e inspirador quando ele é feito à mão, sem o uso do Photoshop e outros instrumentos de criação e manipulação de imagens”, diz. “Filmes icônicos tiveram seus cartazes feitos assim, o que explica o fato de muitos deles terem ficado na memória afetiva de milhões de pessoas.”

Originalmente, cartazes de cinema eram produzidos exclusivamente para as salas onde os filmes eram exibidos, e eram requeridos de volta tão logo a obra saísse de cartaz. Nos Estados Unidos, os cartazes eram geralmente retornados para uma operação nacional chamada The National Screen Service (NSS), a qual imprimia e distribuía a maioria desses objetos para os grandes estúdios entre 1940 e 1984. Desnecessário dizer que, hoje em dia, muitos deles são relíquias e objeto de culto entre cinéfilos, estudiosos, profissionais do meio e artistas em geral (e não apenas do cinema). No entanto, como medida de economia, a NSS reciclava com regularidade os cartazes retornados, enviando-os novamente para uso em outro cinema. Durante este período, um filme poderia ficar em circulação durante muitos anos, e muitos cartazes antigos ficaram severamente gastos antes de serem “aposentados” no depósito da NSS (com frequência eram jogados fora quando não se precisava mais deles, ou estavam de fato muito gastos para serem reutilizados). Mas no início dos anos 1980, os grandes estúdios americanos começaram a retomar o controle e a produção de seus próprios cartazes da NSS e o processo de criação deles acabou por descentralizar-se nos Estados Unidos.

Cartaz de “My Friend, Kolka!”(1961), feito por Miron Lukyanov.

Para além do pôster de cinema americano, outro que chama muito a atenção pelo modo como era concebido eram os russos. Produções hoje importantes e/ou clássicas do cinema daquele país – como O Encouraçado Potenkim (1925) e My Friend, Kolka! (1961), dois exemplares que cobrem períodos distintos dessa arte – tiveram seus cartazes desenhados e/ou feitos para expressar com fidelidade as ideias do filme em questão, o primeiro, uma obra política e cinematograficamente inovadora no uso da montagem (aliás diversas vezes imitada e/ou citada por outros), e o segundo, um drama juvenil que trazia inclusive o uso de canções. Na Rússia então é que uma certa discrepância era ainda mais evidente quando se tratava de produzir esses objetos. Após a ruptura da União Soviética em 1991, muitos artefatos relacionados à vida soviética – de pôsteres a dispositivos e engenhocas – foram descartados, destinados a serem esquecidos. Fundado em 2012, O Museu de Design de Moscou coleciona objetos dessa época (que acabariam por formar o núcleo de um livro editado no Reino Unido algum tempo depois, o Designed in The USSR). Estes cartazes de cinema, feitos entre 1957 e 1966, de modo geral coincidem com o chamado Degelo Krushchev, um período de crescente liberalismo que se seguiu após a morte de Stalin. “Eles também refletem sua época”, diz a diretora do museu, Alexandra Sankova. “Naquela época, o design tinha uma expressão artística que refletia o degelo e os sonhos de um novo mundo, muito mais aberto, que se anunciava. Filmes românticos e histórias de mistério eram populares, mas “o povo soviético amava as comédias mais do que tudo – elas se tornaram clássicos do gênero, e muitas pessoas ainda as conhecem de cor e salteado.” De um modo geral também, a arte russa é muito rica, expressiva, com um uso de cores forte e sintomático, que se estende para além do pôster de cinema, muito embora esse objeto (o pôster) seja um exemplar extremamente conhecido da difusão do pensamento, da estética e das constantes revoluções que fazem parte da Rússia. “De qualquer lugar, mas muito mais da Rússia, que sempre teve um histórico com panfletos e cartazes muito grande”, diz Sankova.

Ao longo dos anos, até cartazes de filmes de Bollywood – o equivalente à Hollywood indiana, que chega inclusive a produzir o dobro da indústria americana – tornaram-se um fetiche e itens de colecionador. Muitas dessas produções têm um histórico fascinante no cinema, mas isso não é tudo. Assim como sua equivalente nos EUA, os cartazes de filmes bollywoodianos são também parte importante dessa indústria, assim como eram a única fonte ao ar livre para a promoção desses trabalhos. Naturalmente, em um país conhecido por sua vibração e colorido, os cartazes precisavam ser mais excêntricos. Bollywood possui uma tradição extensa em termos de arte – levando tão a sério a feitura de seus cartazes para o cinema quanto, inversamente, os filmes trazem em sua essência um desprendimento e singeleza que dão o ar de sua graça. Feitos à mão, por exemplo, nos anos 1950, eles seguiram evidentemente a tendência do século 21 em serem confeccionados de maneira digital, com arte e acabamento realizados no computador. Mas não perderam seu charme.

Como é de se imaginar, existem vários tipos e tamanhos de cartazes para o cinema – desde os conhecidos lobby cards que adornavam as entradas dos enormes palacetes dos anos 1920/30/40 e 1950, utilizando todo tipo de design e informação para se vender o filme, até os teaser posters que evidentemente procuram não revelar muita coisa sobre o produto. Há também os chamados character posters, muito comuns nos anos 1940, em geral pintados e exibindo os rostos dos atores em cenas importantes e/ou cruciais do filme. Atualmente, os character posters em geral utilizam fotografias dos atores vestidos como os personagens, e são feitas ou para promover a obra antes do lançamento ou como cartaz propriamente dito.

José Luiz Benício em seu ateliê.

E o cartaz de filmes brasileiros?, você deve se perguntar. “O Brasil sempre foi reconhecido por possuir uma produção cultural diversificada e de alta qualidade, sendo inclusive exportador por excelência em determinados segmentos, como as telenovelas. O design de cartazes não poderia ficar pra trás”, afirma Marcelo Mello Macedo, autor de um estudo de semiótica sobre cartazes de cinema brasileiro, com ênfase em dois filmes importantes de épocas distintas – Pixote (1981), de Hector Babenco, e Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles. Considerando-se a produção de cartazes de cinema em particular, é obrigatória a referência ao artista José Luiz Benício, um dos maiores ilustradores brasileiros do século XX, com uma vasta produção não só na arte dos cartazes, mas também nas áreas editorial e publicitária, gráficas para o cinema nacional, muitas delas ganhadoras de prêmios. Entre suas criações, destacam-se cartazes de grandes sucessos de bilheteria, como Independência ou Morte (Carlos Coimbra, 1972), Dona Flor e Seus Dois Maridos (Bruno Barreto, 1976) e O Beijo no Asfalto (Bruno Barreto, 1980), além de vários filmes dos Trapalhões. Em 2007, a Academia de Cinema Brasileiro concedeu-lhe prêmio especial pelo conjunto de sua obra.

Outro profissional de atuação consolidada na arte dos cartazes é o artista gráfico Fernando Pimenta, criador das ilustrações de outros grandes sucessos das telas, como Bye, Bye Brazil (Cacá Diegues, 1979), Bonitinha Mas Ordinária (Braz Chediak, 1981), Eu Sei Que Vou Te Amar (Arnaldo Jabor, 1986) e outros. Todos de muita criatividade, um pouco de loucura e boa dose de emoção. Para completar, merece também referência o designer gráfico Rogério Duarte, autor de cartazes e capas de disco no período da Tropicália. Da Pop Art com elementos da cultura popular brasileira, Duarte realizou “uma verdadeira antropofagia visual, digna das idéias preconizadas pelos modernistas paulistas de 1922”. É de sua autoria o cartaz do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), segundo longa-metragem do cineasta Glauber Rocha, lançado dois meses após o golpe militar. Sua temática lançava um outro olhar sobre a realidade do sertão nordestino, tratando de temas como o cangaço, o coronelismo, o beatismo e a literatura de Cordel. Mais recentemente, o artista Marcelo Pallotta vem se destacando entre os cartazistas mais requisitados do cinema brasileiro do século XXI. Com 50 anos de idade e vinte de carreira, o designer gráfico contabiliza no currículo 150 pôsteres de filmes marcantes, como Carandiru,O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, Cidade de Deus e Que Horas Ela Volta?.Seu primeiro trabalho foi para Os Matadores (1997), de Beto Brant. Mais uma prova de que a arte para o design de cartazes de cinema continua viva e pulsante. Em tempo: o cartaz que ilustra essa matéria é do clássico francês O Atalante (1934), de Jean Vigo, com arte feita por Michel Gondry.          

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