Os Rostos de Lee Jeffries

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Em 2008, o contador e fotógrafo amador Lee Jeffries estava em Londres para correr em uma maratona. Algumas horas antes da competição, Jeffries decidiu dar um giro pela cidade a fim de tirar fotos. Próximo à Leicester Square, ele virou sua câmera 5D com uma lente 70-200 para uma jovem mulher, moradora de rua, enfiada em um saco de dormir no meio de contâineres de comida chinesa. “Ela me viu e começou a gritar na minha direção, chamando a atenção dos transeuntes”, conta Jeffries. “Eu poderia muito bem ter dado o fora dali, constrangido, ou poderia ter me aproximado e pedido desculpas.” Ele escolheu a última opção, atravessou a rua e sentou-se ao lado da mulher. A jovem de dezoito anos, cuja compleição física deixava mais do que claro um vício em drogas, contou a Jeffries a seguinte história: seus pais haviam morrido, deixando-a sem um teto sequer, e agora ela vivia nas ruas de Londres.

Essa experiência teve um impacto profundo em Jeffries, delineando seu interesse pelo assunto que vem moldando seu trabalho de fotografia de rua – pessoas sem teto – e definindo sua abordagem em relação à fotografia. Evidentemente, ele não queria explorar essas pessoas, ou mesmo roubar as fotografias que tirava delas, como muitos profissionais do ramo o fazem – percebendo os sem-teto como um alvo fácil. Em um esforço para realizar retratos íntimos, Jeffries tenta se comunicar com cada uma dessas pessoas de uma maneira muito pessoal, em primeiro lugar. Desde então, seus rostos, em uma série impressionante de fotografias em preto e branco, vêm dos mais diferentes recantos do mundo – de Londres, Los Angeles, Paris, Roma, Las Vegas, Nova York e outras áreas urbanas.

“O trabalho dele é muito impactante”, diz A. Nakamura, produtor da Sincronia. “Inicialmente, não o conhecíamos, e foi só através de amigos em comum que suas fotos chegaram até nós. Mas o mais terrível disso tudo é perceber como uma pessoa talentosa como ele ainda não obteve apoio”, continua o produtor. “O curioso é que ele surgiu bem num momento em que estávamos trabalhando no É Quase Verdade, e não havia como não perceber como os dois meios se comunicavam”, diz. “No começo de todo o processo do É Quase…, os meninos (Emanuel Mendes e André Campos Mesquita) pensaram em realmente realizar um documentário verdadeiro sobre essa situação tão trágica, especialmente na cidade de São Paulo, onde muitos deles não só moram nas ruas, mas a maioria tem até uma profissão, se envolveu com o crack e perdeu totalmente o contato com a família, exatamente como na história da menina de Londres.”

Seus retratados são na maioria das vezes voluntários, e Jeffries impressiona e comove ao capturar expressões emocionais destas pessoas muitas vezes invisíveis à maioria da população, que na verdade não os quer enxergar. Ele também realiza entrevistas, conseguindo se comunicar com elas pelo simples fato de deixá-las serem ouvidas. Ao invés de lucrar utilizando uma população muitas vezes vulnerável, ele confronta um assunto que muitos de nós ignoramos, e parte de seu trabalho serviu à direção de arte, os figurinos e muitas das ideias contidas no filme É Quase Verdade – um fato admitido pelos próprios realizadores, desde o início do trabalho. “Obviamente em um nível muito diferente, uma virada meio que 180 graus, mas sem dúvida ele foi uma primeira inspiração”, diz Ney Guimarães, um dos diretores de arte de É Quase Verdade.

Hoje em dia, Jeffries ainda corre pela maratona de Londres todos os anos, fazendo doações como equipamentos, cópias das fotos e câmeras para a organização do evento, ao mesmo tempo que realiza a mesma atividade com outras entidades de caridade ao redor do mundo. “Não posso mudar as vidas dessas pessoas”, Jeffries explicou. “Não posso rodopiar uma varinha de condão e fazer uma mágica, mas isso também não significa que não possa tirar fotos delas e tentar levantar atenção para a situação em que se encontram.

E ainda que seja reconhecido – ele já ganhou medalhas de ouro, bronze e prata em concursos da Amateur Photographer pelo trabalho -, sua atuação, que chega quase ao limite do hiperrealismo, continua financiada com recursos próprios. Lee Jeffries possui um estúdio em Londres e um website no qual divulga suas fotografias.