Rubens Ewald Filho: Um Certo Olhar

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Mais Famoso Crítico de Cinema do País Deixou Legado Importante

 

Rubens Ewald Filho – o mais famoso crítico de cinema do Brasil –, falecido por problemas cardíacos neste último 19 de junho de 2019 –,  sempre foi um pioneiro, ligado a todas as novidades desta área na qual se dedicou a vida inteira e ajudou a popularizar no país. Ele foi o ícone para toda uma geração que cresceu nos anos 1980 consumindo os filmes em fitas VHS, quando o videocassete começou a despontar no mercado como opção de consumo para as pessoas, e seus guias, onde cotava e resenhava as produções, tornaram-se verdadeiras Bíblias para cinéfilos de todos os cantos. Tanto que, graças ao sucesso e popularidade deles, outros jornalistas e críticos seguiram o mesmo caminho, em maior ou menor grau, alguns mais e outros menos bem-sucedidos.

Mas jamais se igualando ao conhecimento enciclopédico e à mesma paixão e furor pelo cinema. Um exemplo disso vinha do próprio Rubens, que dizia sempre que “crítico adora um filme chato, lento e complicado” – uma máxima que se perpetua pela imprensa brasileira (e até mundial), e que dá de fato a impressão de esses críticos e jornalistas usarem o cinema mais como instrumento político e ideológico do que exatamente como entretenimento, mais ou menos como alguns diretores de cinema também o fazem. E ainda que o próprio Rubens gostasse de filmes chatos, lentos e complicados – como suas boas avaliações de fitas de cineastas às vezes impenetráveis e/ou de arte –, ele ao mesmo tempo não só pinçava as qualidades, características e defeitos dessas obras e/ou diretores com palavras e termos precisos, como também sabia a diferença entre um produto artístico coeso, bem-feito, que comunicava algo, de outro que muitas vezes era apenas uma ego trip de seu autor, ou as chamadas, para usar seu próprio termo, “alucinações coletivas” (quando todos elegem este ou aquele filme/diretor como entidades sacrossantas inatacáveis), que sempre tomam conta da imprensa de vez em quando. Nisso, Rubens era imbatível.

Nascido em Santos, em 1945, ele foi o primeiro crítico de cinema a descobrir a importância do vídeo, colaborando com a extinta revista Vídeo News desde seu primeiro número. Graças a seu vasto conhecimento, foi aos poucos chamado pelo jornalismo brasileiro para cobrir esta área ainda incipiente e pouco explorada no Brasil. Não demorou muito para virar referência – tornando-se, ao longo dos anos, o Homem do Oscar, graças aos trabalhos desenvolvidos na TV Globo – de onde esteve de 1979 a 1990 –, apresentando e comentando as transmissões do prêmio, muitas delas com observações polêmicas e ferinas que faziam tanto a delícia de seus admiradores quanto erguiam a fúria de seus detratores. Além deste trabalho na televisão – e aí se inclui também o programa que apresentou durante anos na HBO, o Cine REF –, Rubens também escreveu para a Tribuna de Santos, resenhou para a coluna Filmes na TV, no Jornal da Tarde (de São Paulo), para a revista Playboy, Nova, entre outros veículos. Do outro lado da moeda, foi ator em algumas produções (Amor, Estranho Amor; As Gatinhas; A Herança), escreveu novelas na antiga Rede Tupi, para a TV Globo e Cultura, e publicou, além dos Guias (VHS e, depois, para o DVD), livros de referência, alguns únicos em língua portuguesa, como seu conhecido Dicionário de Cineastas.

Escrevia de forma simples, clara, objetiva, às vezes até superficial, mas sem firulas e/ou termos complicados, como na grande maioria da imprensa – embora jamais possa-se dizer que foi um homem superficial. Sua morte enterra um certo olhar sobre o cinema que não mais existe, e talvez a crítica cinematográfica tal como a conhecemos e aprendemos a respeitar.