UMA DÉCADA DE HISTÓRIAS

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Conheça a Trajetória de Fundação da Sincronia Filmes

 

Por Milena Sardoz

Emanuel Mendes e Francisco Costabile estão sentados onde antes ficavam as cadeiras pouco confortáveis de uma padaria de quase esquina na alameda Ministro Rocha de Azevedo, entre a avenida Paulista e a alameda Santos, em São Paulo, naquela tarde de verão de 2010. Conversam muito seriamente sobre abrirem juntos seu próprio negócio após algumas tentativas frustradas de criarem uma produtora – conjuntamente a outras pessoas ligadas a eles –, em um processo narrativo que vinha se estendendo desde meados de 2009 e que certamente daria um filme dos bons. Vindos ambos do curta-metragem – Emanuel com dois filmes no currículo e Costabile com mais dois realizados em parceria com outro diretor, Elcio Verçosa Filho –, eles delineavam não só como iriam formar o que viria a ser a Sincronia Filmes, uma produtora multimídia que iria abarcar não apenas o cinema, e sim outras mídias e telas, como a TV e a publicidade, além de virar, em um futuro não muito distante, uma distribuidora totalmente independente, mas também como poderiam dar o start produzindo de verdade alguma coisa. Chegaram à conclusão que deveriam escrever, produzir e dirigir um filme, um curta novo, um retorno ao cinema tão adorado por eles, e que esse trabalho deveria entrar no currículo da empresa tão logo toda a burocracia e papelada estivesse organizada.

Costabile (à esquerda) e Mendes na filmagem de “O Homem Que…”

Um resumo anedótico destes não dá, no entanto, a ideia de como uma empreitada daquelas de fato aconteceu: entre a semente jogada por Emanuel para Costabile até a fundação da Sincronia Filmes em agosto de 2011 – que chegou a ter inúmeros nomes até se chegar ao definitivo, de Câmera Nova a Locomotiva Filmes, de Sincroniza Produções a Criterium Filmes (diante da admiração de Emanuel pela Criterion Collection, distribuidora americana de filmes) – bastante água passou por debaixo desta ponte. Conheceram muitas pessoas, afastaram-se de outras, quase arrumaram outros sócios, correram atrás de outros negócios (como o da startup beeyou, que acabou não acontecendo, mas cuja ideia ainda permanece viva) até finalmente verem a luz da projeção no projeto de curta que desenvolveram ao longo de meses com colegas e amigos vindos das mais variadas áreas e departamentos, inclusive e principalmente da antiga MTV, onde Francisco era empregado como editor de programas. O filme – chamado O Homem Que…, assim mesmo, com reticências, nome sugerido inclusive pela produtora Julia Maury, na época namorada do diretor do curta, Yuri Tarone, e que fala sobre loucura – infelizmente teve uma carreira breve, projetado em poucos lugares. Mas historicamente marcou o início da Sincronia, já que Emanuel e Francisco perceberam, ao menos naquele momento, que a coprodução era um caminho não apenas criativo, mas fundamental para o nascimento e concretização da empresa. A partir dele, outros trabalhos vieram, como Estátuas Vivas, dirigido pela jovem Mirrah Iañez, um premiadíssimo documentário de 14 minutos retratando os chamados estatuístas nas ruas da capital paulista; Os Chorões, microssérie de humor feita para a internet a fim de que a Sincronia entrasse no mercado do que hoje em dia se chama outras telas; e principalmente É Quase Verdade, uma mistura de comédia e documentário falso escrito e dirigido por Emanuel (em colaboração com o amigo André Campos Mesquita), que era mais ou menos a cereja do bolo – ao menos nesta primeira metade do caminho.

E se as dificuldades e intempéries inerentes a este mercado não arrefeceram os dois jovens cineastas – além da concorrência muitas vezes desleal, alguns projetos foram criados mas abandonados; quase fizeram parceria para a produção de sua primeira animação (com um animador de Santa Catarina); um prêmio da TV Cultura e Secretaria de Cultura de São Paulo para escrever um roteiro de longa-metragem (que foi escrito mas não produzido) –, isto só provou a obstinação e a confiança de que estavam no caminho certo, de que era preciso fazer as coisas de acordo com os seus valores, seus princípios e em uníssono com aquilo que acreditavam, muito embora estas mesmas dificuldades tenham contribuído para a saída de Francisco Costabile em 2014, que percebeu que seu negócio era mesmo o de escrever roteiros (formando uma eventual parceria com a atriz e corroteirista do longínquo filme para a TV Cultura, Erikah Barbin), deixando um vazio na sociedade com Emanuel que só não levou este último ao fechamento total da empresa porque ele acreditava em si e em seu trabalho. Seu empenho em querer tornar a Sincronia um modelo de empresa, a fim de que ela produzisse os filmes deles, e de outrem, de uma forma independente, e procurando transformar as cinco áreas nas quais se propuseram a trabalhar (e que explicam muito do design do logo da produtora), foi o que o motivou a seguir em frente, ainda que solitário e tendo, até então, que pensar e resolver tudo sozinho.

Janaina Zambotti

Mas esta seria, felizmente, uma situação temporária – já que algum tempo depois, em 2015, entra em cena Janaina Zambotti, jovem e obstinada produtora de eventos que compartilhava com Emanuel a mesma persistência e empenho em levar adiante as mais diversas responsabilidades. Ainda que nunca tivesse trabalhado na área do audiovisual, nem nunca produzido um filme, Janaina se adaptou ao ambiente de maneira rápida, chegando mesmo a modificar determinados aspectos do modus operandi da companhia – por exemplo, fazendo Emanuel enxergar a importância de se ter uma assessoria de imprensa – e principalmente ajudar o fundador a seguir com a máxima de se conduzir o negócio sempre como uma startup, com uma atitude despojada, um ambiente de trabalho divertido e estimulando o espírito de equipe e de crescimento, encorajando sempre a criatividade, independente do tamanho que a Sincronia se tornasse nos anos subsequentes.

Anos estes que foram marcados por algumas modificações, aprendizados e expansão das áreas de atuação – exatamente aquilo que Emanuel tanto queria. Juntos, fizeram surgir uma agência de publicidade afiliada à Sincronia Filmes, a Babaorum Publicidade, para cuidar não apenas da imagem da produtora, mas principalmente das campanhas para os clientes que, pouco a pouco, iam surgindo, graças ao boca-a-boca sobre a qualidade do trabalho que ambos vinham realizando. Com concepção e montagem da Babaorum – microempresa que congrega alguns criativos amigos e colaboradores dos dois sócios – e realização (ao menos de filmes publicitários) da Sincronia, os dois criaram o melhor dos mundos, sem precisar de terceiros, sem estabelecer falsas parcerias dentro de um mercado que, como ambos bem sabem, é restringido pelas famosas panelinhas e por geralmente fechar as portas a quem está começando ou não possui os conhecidos QIs. Pela agência, miraram em um nicho sobre o qual se debruçam todos os dias, o mercado das startups e pequenos negócios, justamente por terem a mentalidade mais aberta, por arriscarem em seus respectivos objetivos, uma característica do pensamento tanto de Emanuel quanto de Janaina. 

Filmagem de “A Tecnologia Social” na África do Sul

E juntos, também, desenvolveram o primeiro projeto de longa-metragem da casa – o documentário A Tecnologia Social –, que conseguiu a façanha de não apenas ser uma produção independente do circuito dos patrocínios via leis de incentivo (e que, segundo Emanuel, só serve para fechar ainda mais o acesso àqueles que não possuem os famosos amigos e/ou esquemas dentro das empresas), já que foi financiado inteiramente por uma empresa privada americana, como deu um salto de autonomia para a Sincronia Filmes. Com o filme, todo rodado na África do Sul, falando sobre empreendedorismo na era digital, violência contra mulheres e luta contra AIDS, a produtora não só controlou todos os aspectos, desde a ingestão da ideia, contratação da equipe e concepção em geral, como também virou, da noite para o dia, uma distribuidora independente, ainda que pequena, lançando o trabalho nas salas de cinema (do Itaú Cinemas), e posteriormente para o mercado de home vídeo, com a criação de um selo da Sincronia Filmes – sobre o qual Emanuel, com todo o entusiasmo, inspirou-se em muito em sua tão querida Criterion Collection. 

Isso ainda possibilitou a dupla trabalhar em projetos para este mercado – de novo espelhando-se na excelência das melhores distribuidoras de filmes do planeta, não apenas a Criterion –, lançando, no ano seguinte, em 2019, a versão restaurada do clássico do cinema brasileiro, Feliz Ano-Velho, em uma bem-cuidada edição de colecionador exatamente como manda o figurino, com extras relevantes produzidos especialmente para o disco. O plano é continuar – tanto com o conteúdo que produzirem (filmes, séries, especiais musicais etc) quanto daqueles que adquirirem de terceiros, via a cessão de direitos autorais –, investindo ainda no de novos artistas (a exemplo do cantor Elzo Henschell, com quem estabeleceram uma parceria criativa estendendo-se a videoclipes, projetos de shows e outros). O trabalho continuou para a Sincronia Filmes e a Babaorum Publicidade, com a produtora fechando parcerias para campanhas de solidariedade, como a que fizeram em 2020 para a Fenabrave, entidade que congrega o setor automobilístico no Brasil, além de assinarem contrato com a Baby Care, startup paulistana de cuidados maternos para quem elaboraram uma linda campanha enfatizando a proposta de valor da companhia, e outras com as quais a produtora está em negociação – até o fechamento desta matéria, eram duas, uma do setor alimentício e outra do segmento de energia limpa e recicláveis. 

Aos dez anos de idade, celebrados neste agosto de 2021, a Sincronia Filmes apenas começou, nas palavras de seu próprio criador – ainda há muitos projetos de filmes, séries e de multimídia em preparação e planejamento na produtora. Emanuel Mendes e Janaina Zambotti encaram as dificuldades e incertezas do setor com a garra dos navegadores enfrentando as piores tempestades, pois sabem, como diz o antigo ditado, que mar calmo não faz bom marinheiro. Ao continuar investindo na excelência e inovação do seu trabalho e na valorização de seus princípios, a produtora se sobressai perante as outras, firmando-se como a eterna startup fugindo do tradicional e sempre procurando um modelo disruptivo de operação.  

    

Milena Sardoz é publicitária e contribui para este site.                  

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