A Ascensão Feminina

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Filme de mulherzinha. Comédias românticas açucaradas com final feliz feitas para agradar ao público feminino. Sexo frágil. Lugar de mulher é na cozinha. Mulher no volante, perigo constante. Esses e outros preconceitos que durante muito tempo povoaram o imaginário na sociedade – difundidos em muito por homens em geral – vêm caindo por terra à medida que mais e mais mulheres provam o contrário, em todos os campos do saber. E não estamos falando de um rise (ascensão) feminino significando apenas um modismo ou uma onda a ser seguida para acabar logo ali, na esquina de um assédio sexual ou na falta de respeito de um comentário grosseiro. “As mulheres vêm demonstrando cada vez mais uma capacidade muito grande para se igualar aos homens, principalmente em áreas onde não eram valorizadas”, afirma Marcela Liz, jornalista e empreendedora que contribui regularmente para este site. “E realmente, todo esse movimento feminino que vem acontecendo no mundo não apenas deu ainda mais voz para nós mulheres, no sentido do respeito ao sexo oposto, como conseguiu demonstrar que somos uma cultura ativa. E olha que isso acontece de tempos em tempos, desde pelo menos a revolução sexual nos anos 1960, mas talvez nunca com tanta força como agora, quando as pessoas – de ambos os sexos – já não aceitam mais a intolerância, o preconceito, a traição consigo mesmas, e, portanto, a infelicidade”, diz Marcela, ela própria um modelo de independência e intrepidez, já tendo fundado uma revista e vindo trabalhando nos ramos do empreendedorismo há mais de uma década.

Independência parece ser a palavra de ordem no mundo contemporâneo, atrelada ou não ao movimento feminino – e, é claro, tudo o que vem ligado a ela: isenção; imparcialidade; libertação; o caráter da pessoa que não segue ideias determinadas ou regras preestabelecidas. E isso traz um impacto positivo para o planeta: basta ver que esses movimentos de libertação e respeito ecoam na economia, nas artes, na política, na sociedade como um todo. São pessoas que tentam de uma forma ou de outra mudar o mundo. “Pode parecer meio utópico e romântico isso, mas é real. Hoje existem milhares de websites e organizações combatendo, por exemplo, a violência contra mulheres e crianças, o assédio que mulheres sofrem”, continua Marcela. “Muito antes até de todo esse problema envolvendo celebridades assediadas ou constrangidas em meio público”, afirma ela.

E se o movimento do MeToo – a hashtag que circulou a internet para denominar quantas, e quais, dessas celebridades sofreram assédio – dominou as conversas dentro e fora do show business é só mais uma prova de que o assunto e suas subdivisões estão longe de se esgotar. “No cinema, na TV e na publicidade esse é um fato mais pertinente ainda”, diz Felipe de Abreu, pesquisador de cinema e mídias visuais. “Basta perceber a quantidade de comerciais de cerveja que durante muito tempo exploraram a mulher como objeto sexual”, continua ele. “Ou mesmo a pouca quantidade de bons papeis para atrizes de todas as idades ou o número relativamente pequeno de mulheres diretoras no mundo – profissionais que respondem por cerca de apenas 5% dos que estão no mercado atuando como cineastas. Por causa disso, são obrigadas a trabalhar de forma independente, na TV, na publicidade, muitas vezes atuando em áreas nas quais não têm interesse ou não têm muita qualificação.” Adicione aí o tempero – muito ruim, aliás – do preconceito e as dificuldades inerentes ao meio, histórias muito comuns de declínio e de falta de financiamento, ou muitas vezes interrupções bruscas de produção devido a escolhas estéticas e de temática pouco aceitas pela sociedade mais conservadora.

No entanto, apesar de todos esses problemas, o cinema e a TV já deram produções de qualidade feitas por mulheres talentosas desde pelo menos o início do século vinte, começando com uma das mais famosas diretoras de todos os tempos, a alemã Leni Riefenstahl, autora do mais famoso documentário da primeira metade do século passado, O Triunfo da Vontade (1935) – propaganda nazista que, à parte sua associação direta com Hitler (que financiou o filme e outras obras dela, provocando ao mesmo tempo seu sucesso e seu declínio mais à frente), foi inovador no uso da câmera, dos enquadramentos, criando uma estética até hoje imitada, inclusive por produções de Hollywood. “Ela deve ter sido a grande influenciadora, pelo menos no cinema, desse papel das mulheres, dessa busca pela independência, do exibir o talento para a profissão que escolheu, muito embora tenha servido a propósitos enaltecedores de um dos acontecimentos mais terríveis da humanidade”, diz Abreu. “Mas olha que estamos falando dos anos 1930, antes ainda da Segunda Guerra, e portanto, durante um período importante de transição no mundo.”

A partir de Riefenstahl, o cinema e outras mídias deram voz – ainda que, como mencionado, com dificuldades e bastante preconceito – para que outras mulheres pudessem se expressar. Foram diretoras vindas do mundo inteiro: da inglesa (que atuou em Hollywood) Ida Lupino (que ilustra a foto principal desta matéria), que começou no final dos anos 1940, a outras europeias como Vera Chytilová (autora de Daisies), Lina Wertmuller, Chantal Akerman, Larisa Shepitko, Agnès Varda; da americana Penny Marshall à neo-zelandesa Jane Campion e a polonesa Agnieszka Holland; a indiana Mira Nair, a brasileira Suzana Amaral, entre muitas outras. “Até chegar à geração que explodiu a partir dos anos 1990 – como Sofia Coppola, Samira Makhmalbaf, Joan Chen, Lynne Ramsay, Agnès Jaoui, Claire Denis, Kathryn Bigelow, Kirsten Johnson, Lone Scherfig, Ann Hui, Dee Rees, as que fizeram importantes obras na América Latina como Lucrecia Martel, Laís Bodansky, Anna Muylaert, Tata Amaral, a lista é imensa e mais diferenciada do que se imagina, com ramificações que vão para a televisão, a multimídia, a publicidade e até o teatro”, pondera Abreu. “E as implicações vão além – veja só, até mesmo a conservadora Hollywood se curvou diante dessa saudável tendência: há números crescentes de superproduções utilizando mulheres como protagonistas e/ou modelos de heroísmo, a começar pela franquia do Star Wars, que já colocou duas mulheres nos papeis centrais nos filmes, sem mencionar ainda as obras da Mulher-Maravilha e o sucesso independente Lady Bird, da Greta Gerwig.”

Se isso mostra uma tendência que só tende a crescer – como prometido pela frase O Futuro é Feminino – e veio para ficar, é outra história. “Ainda há muitas barreiras pelo caminho, muitos tabus a serem enfrentados, mas o que vemos hoje em dia no mundo é uma mudança muito significativa, em todos os aspectos, não apenas para mulheres, mas para as minorias de todos os tipos também”, diz Abreu. E certamente um futuro mais igualitário que aos poucos vai tomando forma, enterrando de vez preconceitos e frases imerecidas como as que iniciaram este artigo.

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