ASSIS & ALETÉIA NA TV

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 Curta de Estreia de Emanuel Mendes em Cartaz no Box Brazil

 

Por Milena Sardoz

Depois de alguns anos armazenados nos arquivos da Sincronia Filmes, a produtora resolveu resgatar os dois primeiros curtas-metragens realizados pelo diretor e fundador da produtora, Emanuel Mendes: Assis & Aletéia (2002) e Amarar (2008), que passará por uma nova remasterização e deve voltar ao circuito daqui a algum tempo. Realizados em película, o primeiro em 16mm e o segundo em 35mm, em um esquema totalmente independente, os filmes foram feitos antes de Mendes abrir a Sincronia – e produzidos por outras produtoras a quem o diretor se associou na época. O material estava guardado em fitas Betacam e, depois de algumas conversas, tanto Mendes quanto a produtora e sócia Janaina Zambotti resolveram resgatá-lo, não apenas para verificar o estado do material, mas também por conta do interesse do canal Box Brazil Play, NOW e suas subsidiárias, em exibir os filmes na televisão. 

“Não víamos este material há muito tempo, no caso do Assis, há mais de vinte anos”, afirma Janaina, “mas, é claro, havia um interesse e curiosidade de nossa parte em saber como ele estava, se era possível resgatá-lo para, se não exatamente ainda fazer uma restauração (que é muito cara e trabalhosa), ao menos uma remasterização – o que ainda dependeria da avaliação dos arquivos, na verdade um telecine dos negativos originais feito no período em que os filmes iam sendo finalizados”, diz ela. “Ficamos surpresos em constatar que as imagens e o som ainda estavam intactos, permitindo que pudéssemos mexer neles – inclusive e principalmente até encontrando sobras da filmagem, e material não-utilizado na versão final que poderíamos aproveitar.” Com isso, sob o comando do editor-sênior Alberto Ismael, o fiel Betão, e a supervisão tanto de Janaina quanto do diretor Emanuel Mendes, os dois curtas puderam enfim sair de um limbo existencial ao qual estavam relegados para uma nova vida, desta vez no universo digital, e para o mercado de TV, streaming e video on demand em geral. 

Rodado em locações em São Paulo e na cidade mineira de Pouso Alegre (que emprestou a pequena estação de trem e a locomotiva como cenários), Assis & Aletéia, o primeiro a ter esta nova vida, é um conto de amor surrealista inspirado por duas paixões de Mendes, o diretor espanhol Luis Buñuel (1900 – 1983) e o pintor catalão Salvador Dalí (1904 – 1989), em especial o curta mais famoso da dupla, Um Cão Andaluz (1929), marco do surrealismo no cinema, e fala sobre um rapaz (o ator Fernando Seth, que infelizmente abandonou a carreira) que encontra casualmente uma jovem (cujo rosto nunca vemos, e interpretada pela jovem Gabriela Pinheiro) em um vagão de trem, e fica obcecado pelo umbigo dela à mostra. Escrito por Emanuel e seu primo, Christiano Lima, o filme provocou os mais diversos tipos de efeitos em festivais – desde sua primeira exibição no Festival de Gramado em 2002 (cortesia da seleção do cineasta Carlos Reichenbach, que adorou o trabalho) até vaias, aplausos tímidos ou reações desconcertadas após o término com diversas outras plateias. Até hoje permanece um dos curtas mais enigmáticos do cinema brasileiro contemporâneo, trabalhando uma obsessão do cinema de Buñuel – a repetição de cenas, situações e/ou ideias –, apenas para ver tudo isso ser abalado pelo twist final, a última cena que pode mudar toda a percepção do filme. 

“O que está em jogo não é a ação baseada no diálogo, mas sim os sentimentos e sensações das personagens”, diz Mariana Tavares, do canal Rede Minas, que entrevistou o diretor para o Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte em 2008. “Os dois filmes não são preto no branco, é preciso que se monte as próprias narrativas na sua cabeça. Onde começa a realidade e onde termina a ficção fica a cargo de cada um. Dessa forma, os filmes respeitam a inteligência do espectador”, continua Mariana. Obviamente isso não significa uma receita pronta para o sucesso ou ao menos uma acolhida mais confortável por parte de quem os assiste. “As pessoas se esqueceram de pensar – estão muito condicionadas por aquilo que veem na TV, na publicidade, as fórmulas prontas, elas querem sair de um filme tendo entendido tudo, sabendo exatamente quem é o mocinho e quem é o vilão. Se precisam pensar um pouco mais, se esforçar para compreender algo, ou mesmo lidar com a ambiguidade (que é uma das coisas que elas têm mais dificuldade), e não conseguem, a reação imediata é rejeitar aquilo que assistiram”. 

Desafiador e fascinante, Assis & Aletéia está de volta, e junta-se ao terceiro trabalho do diretor Emanuel Mendes, o irreverente documentário falso É Quase Verdade (2014), nas telas da TV. Para assisti-los, é só sintonizar o Box Brazil Play e suas subsidiárias.

Assista ao trailer de relançamento que o pessoal da Sincronia remontou abaixo. 

Milena Sardoz é jornalista, publicitária e contribui regularmente para este site. 

       

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