De Volta para o Futuro

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“Durante anos, a tecnologia foi tentando desenvolver recursos que chegassem próximos, se igualassem, ou mesmo superassem, o filme fotográfico e o cinematográfico. Aí, quando finalmente parece que chegaram a um patamar que seria de igualdade, temos o caminho inverso: a tecnologia tentando imitar o filme, a fotografia, a emulsão, e tudo ligado às antigas películas que faziam parte de nossa vida”, afirma Alberto Ismael, o Betão, nosso editor-sênior responsável pela maior parte das edições e do controle de qualidade na ilha de pós-produção da Sincronia. “É engraçado, pois parece que estamos no meio daquela confusão do filme De Volta para o Futuro – onde não sabemos muito bem se estamos no passado, no futuro, ou em um presente que tenta imitar, ou assimilar, os dois”, pondera o editor.

Mas a consideração de Ismael não é exatamente em vã: ex-câmera de produtoras em geral – com passagens por algumas redes de televisão, pela Imprensa Oficial, cobrindo alguns dos mais relevantes eventos da entidade –, Betão, como muitos profissionais dessa área, viu, passou e precisou se adaptar a várias transformações ao longo de uma carreira de quase 30 anos. “Veja só”, diz ele, tomando uma xícara de café fumegante na copa da Sincronia, “quando eu comecei, ainda no início da década de 1990, eram comuns aquelas fitas D2, Betamax, U-Matic, uns monstrengos que você colocava nas câmeras e/ou nos equipamentos de edição. Aí então elas foram diminuindo, tivemos a revolução com o HD, o Full HD, até chegarmos aos cartões, que vão além da antítese daquelas primeiras fitas, de tão pequenos”, diz ele. “Em paralelo”, continua, “é claro que a imagem e o modo como a manipulamos, criamos e a editamos, foi se transformando também: hoje em dia é muito difícil encontrar produções, não só para o cinema, mas produções audiovisuais em geral, onde a imagem não chega a ser cristalina, de tão límpida, de tão perfeitamente arrumadinha. Acho que foi isso o que, de uma certa forma, provocou essa avalanche de aplicativos para celular, filtros, e todo tipo de efeito imitando a película 35mm e seus derivados. Deve haver um saudosismo muito grande em relação a essa imagem mais pura, com riscos, com grão, com todas as imperfeições que trazia”, diz ele.

No entanto, o mundo real é analógico, não digital. Durante séculos, o homem fez analogias. Fazer analogia é copiar, imitar, tentar reproduzir algo da maneira mais fiel ao original. Foi assim que o homem das cavernas começou a fazer desenhos nas pedras, tentando registrar ali a imagem dos animais que via e também dele próprio. Embora literalmente muito primitivas, essas primeiras imagens traziam o germe de uma importante descoberta para o homem dessa época: a de que era possível criar e guardar reproduções da vida que o cercava. O processo analógico envolvido consistia em copiar as formas básicas do contorno dessas pessoas e objetos, tentando reproduzi-las nas paredes das cavernas através de riscos, que formavam imagens em duas dimensões. “Hoje em dia”, continua Ismael, “alguns desses aplicativos para celular conseguem reproduzir de uma maneira impressionante essa cópia do analógico, como o que o pessoal utilizou para fazer o making of do videoclipe Cigarra, do (cantor e compositor) Elzo Henschell”, reinforça o editor. “Deu pra ficar até emocionado com o nível de realismo da coisa toda – puxávamos os frames para trás e para a frente e parecia que estávamos montando em uma moviola mesmo”, suspira.

Mais tarde na escala evolutiva do homem surgiram outras opções para o registro de imagens, empregando por exemplo pincéis e tintas em cores variadas. O processo analógico aprimorava-se: é assim que temos registros sem conta de cenas e de pessoas da época antiga. Reis, rainhas e personagens simples do cotidiano tiveram suas imagens registradas nas telas dos pintores: durante muito tempo, ao lado da gravura e da escultura, a pintura era o único método de captação da realidade, muitas vezes mesclada com a imaginação dos artistas. Surge então o processo químico: com o auxílio de lentes, consegue-se registrar com grande fidelidade uma determinada imagem projetada sobre uma superfície preparada com substâncias especiais sensíveis à luz. O processo, conhecido como escrita com a luz, ou seja, a fotografia, baseia-se em um conceito fundamental para o registro de qualquer imagem, um conceito muito simples, tão simples que às vezes é preciso até um pouco de raciocínio para enxergá-lo. É o conceito de contraste: só através do contraste é possível existir uma imagem. Um quadro totalmente preto ou então totalmente branco não mostra imagem alguma. A imagem é formada pelos meio-tons, ou seja, pela variação da intensidade da luz refletida pelas pessoas e pelos objetos. É essa variação que forma os contornos, dá forma aos volumes e uma infinidade de outras características que nos permite reconhecer o que ali foi registrado. “E isso”, continua Ismael, “os sensores de hoje em dia vêm captando cada vez com maior e melhor fidelidade. Outro dia vi um teste realizado com fabricantes de câmera para celulares, para câmeras de vídeo e de cinema mais profissionais (como a Red One ou mesmo a Alexa, da Arriflex), e em todos eles a imagem era muito parecida – o pessoal chegou mesmo a um nível de sofisticação e qualidade que parecia impossível anos atrás”, avalia. “É claro que as variações existem, como por exemplo a imagem de alguns celulares, cuja resolução é muito bonita, clara, brilhante, onde as cores parecem saltar na sua cara.”

Mas foi assim, desta forma, que qualquer mecanismo que possuirmos ou inventarmos capaz de registrar, individualmente, em cada ponto de uma determinada superfície, a intensidade maior ou menor da luz ali presente, permitirá registrar uma imagem qualquer projetada nessa superfície. Projetar imagens, através de lentes por exemplo, é projetar luz, em diversas intensidades para cada um desses pontos. O processo químico da fotografia permitia esse registro, expondo à luz cristais de prata que mudavam suas características continuamente com essa exposição. Interrompida a luz, a modificação nos cristais também interrompia-se. Aí estava o pulo do gato: como imagens possuem pontos mais claros e outros mais escuros (o contraste mencionado), bastava expor uma superfície carregada desses cristais à luz de uma imagem projetada pelas lentes: onde havia mais claridade, a transformação dos cristais era mais intensa, onde havia menos, menos intensa. Se a superfície ficasse um tempo enorme exposta à essa imagem, todos os cristais acabariam se modificando igualmente e não teríamos contraste algum – não teríamos imagem alguma. O segredo estava em interromper a exposição depois de determinado tempo e, sem deixar essa superfície receber mais luz alguma, levá-la (mantendo-a protegida da luz) para um local escuro, onde os cristais eram “lavados” com produtos químicos especiais, para que não se modificassem mais com a luz, a chamada revelação. “É por isso que alguns filmes fotográficos, como o Noir Tri X, fizeram bastante sucesso em sua época: ofereciam uma imagem muito contrastada, forte, carregada às vezes de grãos. Nos softwares de edição que utilizamos atualmente, existem muitos filtros imitando esses filmes, chegam mesmo a definir o tipo de imagem captada por cada câmera de cinema, definindo o tipo de finalização que você quer dar ao seu projeto”, diz Ismael.

Hoje restrito a uma espécie de elite do cinema que ainda prefere utilizá-lo, o filme cinematográfico não perdeu seu espaço, “e nem deve perder”, pondera Ismael, “o que acho que deve acontecer é o que aconteceu com todos os produtos e/ou serviços disruptivos ou que diminuíram de espaço com a chegada de algo novo (como os vinis, por exemplo): eles vão conviver lado a lado, um ajudando o outro, um dando suporte ao outro, mas nunca um anulando o outro.”

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