Mamma África

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“Você sabe o que é Hackathon?” era a pergunta mais ouvida por todas as pessoas que queriam saber sobre o que se tratava o documentário em longa-metragem A Tecnologia Social – especialmente depois de o filme ter sido contemplado oficialmente para entrar em produção, com incentivo internacional, vindo dos EUA. “Essa era a pergunta que fazíamos, tanto eu quanto o Emanuel (Mendes, co-produtor da fita e owner da Sincronia Filmes), antes de explicar sobre o projeto”, diz a produtora Janaina Zambotti, que, junto de Mendes, idealizou todo o escopo dele, da ideia inicial ao produto final, inclusive a distribuição para as salas de cinema e o mercado de home vídeo e VOD. Janaina se referia ao termo utilizado no meio das empresas startups e de tecnologia em geral para definir a maratona de programação responsável por colocar jovens programadores criando e desenvolvendo aplicativos que tragam soluções inovadoras para determinados segmentos e/ou empresas. Em outras palavras, um Hackathon, e seus resultados, os aplicativos, serve para resolver problemas para a sociedade ou as empresas. O termo, aliás, é uma junção das palavras em inglês Hack (programar ou invadir) com Marathon (maratona).

“No nosso caso”, continua Janaina, “fomos responsáveis por cobrir, em março de 2016, o Hackathon da ABEME – empresa que representa os segmentos do mercado erótico e afins –, cuja proposta foi criar aplicativos voltados ao público jovem e adolescente, e que contivessem informações relevantes sobre sexo, uso de camisinha, doenças sexualmente transmissíveis, entre outros assuntos considerados tabus. Filmamos entrevistas e fizemos um filme institucional. Os aplicativos vencedores funcionavam como redes sociais basicamente, permitindo uma maior interação entre os usuários. Mas houve mais coisas criativas, inclusive até a criação de um jogo virtual”, diz a produtora. Mais à frente, os aplicativos vencedores foram apresentados na Conferência Mundial da Aids, em Durban, na África do Sul. “Nosso plano inicial era ter ido acompanhar os vencedores, realizando assim um filme sobre essa viagem”, diz Janaina. Mas o projeto não aconteceu. Os produtores enfrentaram todo tipo de intempérie para conseguir ir, e aparentemente o filme, como se diz, morreu na praia. “Mas não desistimos”, sorri Janaina. “Continuamos correndo atrás de investidores e/ou empresas que pudessem bancar a empreitada” – e que, a essa altura, já havia se modificado bastante –, “até que uma multinacional com escritórios em São Paulo, um laboratório americano, nos recebeu e nos escutou. Eles possuem um departamento de doações internacionais para projetos lidando com Aids e pesquisas afins. Montamos o orçamento, o escopo do filme, e os enviamos. Precisamos esperar quatro meses até termos uma resposta que, no fim, foi superpositiva”, anima-se Janaina. Os produtores montaram uma equipe – que consistiu basicamente em um diretor de fotografia, Alê Rodrigues, um profissional de som direto, Ricardo Vieira, e um diretor, no caso a fotógrafa Patricia Innocenti, fazendo seu debut atrás das câmeras. “Com o dinheiro”, continua Janaina, “que não foi um patrocínio, o que nos deu uma liberdade de criação muito maior, pudemos realizar e controlar tudo, da semente até a produção final.”

Realizado ainda em parceria com o Consulado Geral da África do Sul, que forneceu todo o apoio de logística à produção, A Tecnologia Social não se limita apenas a falar sobre HIV e Aids. Segundo os produtores, há toda uma gama de assuntos abordados que, semelhante às soluções apresentadas pelos aplicativos do Hackathon, também discute temas muito atuais como sexualidade, relacionamentos dentro e fora da internet, tabus na sociedade, machismo, feminismo, violência contra mulheres. “E tão importante quanto”, continua Janaina, “o filme também é essa jornada de transformação pessoal da Nathalie, que possui um arco interessante no decorrer da história: ela começa de um jeito, e termina de outro – e o mais curioso é que nada disso, os temas e esse arco, foi planejado. Como em todo documentário, deixamos que as coisas acontecessem naturalmente, sem ficar planejando muito.” Outro ponto interessante é o fato, muito consciente aliás, de a equipe ter se incorporado à história, “porque esse era também um filme dentro do filme”, diz Janaina. “Isso ficou muito claro para todos nós a partir do momento em que chegamos lá e fizemos nossa primeira reunião” – reunião essa, a propósito, que está no filme e determina muitos dos temas discutidos durante a narrativa, já que é basicamente uma longa conversa com Nathalie, onde ela discorre sobre o que pensa e faz, onde o espectador tem a chance de saber quem é a “protagonista” com quem irá passar uma hora e meia no cinema.

“Mas não é apenas com a Nathalie”, enfatiza Janaina. “Na verdade, o filme incorpora mais duas mulheres que se somam ao coro de vozes e formam o núcleo emocional do documentário”, afirma a produtora. “A primeira delas é a Saidy Brown – jovem sul-africana que ficou conhecida na internet (e fora dela) ao revelar seu status de HIV positivo para o mundo via o Twitter. Ela e a Nathalie estabeleceram um elo de ligação muito forte e, juntas, elas vão visitar a ONG da Mandisa Dlamini – uma mulher com uma história trágica na qual perdeu a mãe quando ainda era criança vítima do preconceito, da maldade e da intolerância no país, ainda na década de 1990. A Mandisa, uma mulher extraordinária e um exemplo de força, criou essa organização que toma conta de meninas em situação de risco, e que leva o nome da mãe.” Um dos pontos-chave de A Tecnologia Social – e também muito provavelmente jamais imaginado pela equipe – é o fato de o filme ter sido feito em um dos berços da humanidade, a África, considerado um continente importante no processo de surgimento e transformação do homem. Temas levantados pelo filme, de uma certa forma, fazem parte da história da evolução humana que, em muito, passa pela chamada Mamma África. Muitos, inclusive, chegaram mesmo a afirmar que, no filme, Mandisa Dlamini seria a “mãe” das meninas Nathalie e Saidy, em mais um processo da filmagem que, semelhante aos outros, aconteceu de forma completamente natural.

Tudo isso é transcorrido e contado ao espectador em forma de narrativa, como se fosse mesmo um filme de ficção com personagens, muito embora esses personagens existam e possuam um papel muito significativo  – porque uma das preocupações tanto de Janaina quanto do coprodutor Emanuel Mendes era tentar fugir do esquema talking heads, ou seja, apenas entrevistas, da maioria dos filmes do gênero. “Não queríamos que o filme virasse uma espécie de reportagem, estilo as que vemos na TV. Queríamos que fosse, em primeiro lugar, cinema de verdade – que emocionasse, que criasse um impacto, que contivesse todos os elementos de uma história cinematográfica, com começo, meio e fim.” Um exemplo muito forte dessa ideia vem da montagem, que traz os chamados pontos de virada da trama, e do uso da música, a trilha composta pela americana Julianna Barwick, que entra em momentos-chave na história e ajuda a empurrar a narrativa adiante.

Rodado inteiramente em Durban e em Eshowe, na província de Kwa-Zulu Natal (um dos epicentros de Aids no mundo), onde aliás a equipe filmou uma ação dos Médicos Sem Fronteira, A Tecnologia Social chega ainda com uma vocação nobre: falar diretamente com o público jovem – não apenas por causa de sua protagonista, mas também e principalmente pelo fato de esse público ainda estar muito vulnerável às causas apresentadas e discutidas no filme. “Mesmo apesar da informação circulante”, diz Janaina. “Os jovens de hoje, infelizmente, acreditam que Aids e doenças sexualmente transmissíveis são coisa do passado, são problemas enfrentados pela geração dos anos 1980 e 1990 e que, assim, eles estariam imunes a elas.” Durante o desenrolar do filme, esse pré-conceito – um dos muitos quebrados na história – cai por terra e o espectador fica sabendo que Aids e HIV, e tudo atachado a eles (as outras doenças que causa; os preconceitos etc), não só estão muito longe de serem sanados (ao contrário, a doença ainda não está controlada), mas ao mesmo tempo a luta e os esforços para que isso aconteça também estão distantes do desânimo e da falta de interesse. O grande exemplo vem da sequência cobrindo exatamente o aspecto tecnológico do filme: um longo depoimento do importante pesquisador brasileiro Tulio de Oliveira – que vive há mais de duas décadas na África do Sul –, responsável por coordenar uma equipe aplicada na solução e na busca para a cura, ou, ao menos, no controle da doença. Realizando sequenciamento de DNA para entender as mutações do vírus, Tulio e seu time trabalham lado a lado com o governo sul-africano brigando de frente com essa enfermidade que infelizmente ainda atinge muitas pessoas no continente. Mas de qualquer forma, esse é mais um modelo que a Mamma África vem demonstrando no sentido de amparar e não abandonar jamais os seus filhos.

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